Scott McCloud fez seu nome nos EUA com Zot!, uma hq independente de sucesso nos anos 80. Depois, foi atrás de estudar os quadrinhos como linguagens, com caraterísticas formais bem definidas e independentes de outras mídias com as quais é frequentemente comparado, como literatura e cinema. Lançou 3 livros sobre o tema e passou a ser considerado uma referencia nessa área, ao lado do grande Will Eisner. Ao longo dos anos 90 e 2000 fez alguns trabalhos autorais pontuais, mas foi em 2015 que ele finalmente escreveu sua primeira graphic novel, um tijolo de quase 500 páginas chamado O Escultor.
Como é de se imaginar, a historia segue um jovem escultor que foi considerado promissor e patrocinado quando ainda adolescente, mas nos anos seguintes caiu em esquecimento ao ponto de quase abandonar a arte para conseguir pagar aluguel e comer com o salário de empregos sem perspectiva de crescimento.
David Smith é estourado, fala o que não deve, comete frequentes sincericídios e tem uma fixação em não ser esquecido. Quer de toda a forma ser reconhecido para deixar um legado e, de certa forma, se eternizar. O desejo faz mais sentido quando entendemos que Davíd perdeu seu pai, mãe e irmã. A relação dele com a morte, a memória e o esquecimento é mais intensa do que a da maioria das pessoas. Essa intensidade e imprudência o levam a vender a alma em um diner qualquer.
Mas quais são os termos desse acordo com a morte? David ganharia poderes de esculpir, moldar materiais com as próprias mão para tornar realidade qualquer escultura que ele imaginasse, sem dificuldades relacionadas a dinheiro, materiais, ferramentas, etc. Em troca, morreria em 200 dias. Ou seja, isso muda completamente a relação do protagonista com o tempo e com a própria vida, além de informar todas as decisões dele dali para frente. Ou pelo menos deveria, se David não fosse tão impulsivo.
SIm, eu também não imaginava que a graphic novel teria um aspecto sobrenatural faustiano, que enquadra a história e a move daquele momento para frente. Apesar disso, a trama se move de forma mais mundana, com acontecimentos mais comuns, slice of life, como esperado. Inicialmente, David se frustra quando seus primeiros - e grandiosos - trabalhos feitos com seus novos poderes são rejeitados por críticos e galeristas. Ele entra em pânico achando que não vai conseguir cumprir seu propósito de vida nos dias que lhe restam e sua saúde mental declina enquanto ele é despejado e o dinheiro vai acabando.
Mas David acaba sendo salvo por Meg, uma atriz amadora que sabia por alto quem ele era. Isso porque, uns dias antes, ele tinha sido alvo de uma performance artística no meio da rua, em que ela atuava como um anjo que descia do céu para anunciar ao participante involuntário da peça teatral que "tudo vai ficar bem". Sim, um tanto absurdo. A performance de guerrilha em si é meio implausível, assim como e a atriz abrigar quase desconhecidos em dificuldades no apartamento que divide com uma amiga.
Claro que David logo se apaixona por Meg e, com o tempo, ela vai acabar se apaixonando por ele também. E claro que a relação está fadada a dor, já que ele vai morrer em pouco mais de 6 meses. Ele sabe que não devia se envolver, mas não resiste e vai em frente mesmo assim.
Sinceramente eu vejo ai mais uma prova da personalidade imatura e impulsiva do protagonista do que um comentário importante sobre qualquer coisa. Talvez sobre viver cada dia de forma independente e significativa, carpe diem e coisa e tal, ou talvez sobre a única certeza que temos ser a morte e como devemos viver frente a esse imperativo. Mas a história em si não diz muita coisa. Cabe a você extrair algum significado.
Meg é quase um espelho de David. Ela é tão intensa, imprudente e impulsiva quanto ele, mas positiva, vibrante, cheia de vida e ideias. Ela contrabalanceia a negatividade do protagonista e da a ele um equilíbrio e uma chance prática de trabalhar nas obras de arte que ele quer deixar para o mundo.
Mas aí ele esbarra no problema oposto do que tinha encontrado antes, quando esculpiu impulsivamente uma série de esculturas autobiográficas grandiosas, mas sem foco. Dessa vez ele não sabe o que quer dizer, o que quer esculpir. De nada adianta dominar a matéria, moldar em minutos qualquer coisa que se imagine, se você não imaginar nada interessante.
Nesse ponto da história, David busca se inspirar em Meg, usando-a como um musa, como inspiração. Ela participa, mas se sente objetificada. Sente que ele só a vê como uma coisa a ser esculpida e não como uma pessoa. Não sei se isso é uma discussão no mundo da arte, se a própria figura da musa como fonte de inspiração para artistas é problematizada em círculos acadêmicos ou por artistas feministas, mas essa é a impressão que fica.
Apesar disso, em seus agradecimentos e considerações após o fim do livro, o autor deixa claro que tem alguns pontos em comum com David e que Meg certamente tem características da sua esposa Ivy. E que ele vê em Ivy uma fonte de inspiração para a sua arte.
Outra discussão interessante nesse meio da história é a decisão de David de usar seus poderes para fazer arte de rua. No caso, esculturas de todos os tipos com todos os materiais e em todas as partes da cidade. O pensamento do personagem é: se não querem dar visibilidade para a minha arte dentro das galerias, vou fazer ela visível fora das paredes tipicamente reservadas para ela.
É uma justificativa e um objetivo interessante, que democratiza o espaço para os artistas e o acesso a arte para a população. No entanto, isso implica em tomar para si espaços públicos e privados. Tudo isso - a arte em si e o uso do espaço - vai encontrar diferentes reações do público.
Nesse sentido, a história também demonstra como vai ficando cada vez mais difícil executar as esculturas quando todos os olhos e cameras da cidade estão te procurando por diferentes motivos. É algo complicado que leva artistas como Banksy a esconderem sua identidade e viverem em anonimato, se comunicando de forma bem restrita com o mundo por meio de um agente. Muitas vezes também pode ser necessário pensar a obra e dar instruções para terceiros a executarem.
Com o excesso de atenção, David abandona as esculturas de rua, até para não ser encontrado, já que ainda está fugindo do seu antigo landlord, a quem deve dinheiro por suas esculturas gigantes e pesadas terem quebrado o chão e terminado no andar de baixo do prédio, causando enormes prejuízos.
A conclusão da história começa com uma surpresa. Apesar de David estar a poucos dias da sua morte, ironicamente, o prazo de validade de Meg é que acaba antes. Pouco depois de descobrir que está grávida, ela é atropelada em sua bicicleta e morre no meio da rua. Ao mesmo tempo, a polícia encontra David - nem lembro se o procuravam pelos danos no prédio onde morava ou por "vandalismo" com suas esculturas de rua - e ele, na única cena de ação da hq, foge do apartamento e encontra ela caída no asfalto enquanto está prestes a ser preso.
Ele foge novamente, invade o canteiro de obras de uma construção que despejou moradores vulneráveis - em um comentário sobre o poder econômico dos capitalistas que pisam nas pessoas comuns ou algo do tipo, que não é bem desenvolvido - e ali mesmo começa a moldar o aço da construção dos arranha-céus. A noite chega, a neblina o ajuda a escapar da policia que o cerca, e ele consegue esculpir sua ultima escultura, sua grande obra prima. Enquanto está dando os últimos toques, ele é abatido por um sniper e cai lá do alto, morrendo na calçada. Se McCloud conhecesse Chico Buarque, certamente David cairia um pouco pro lado, atrapalhando o trânsito. Não é o caso.
Logo após a morte, a neblina vai embora revelando uma mega escultura gigante de Meg segurando um bebê, o filho que nenhum deles dois teriam. É cafona. A obra em si é brega. Como roteiro, o timming é excessivamente conveniente. Como mensagem... ivy realmente foi a musa de Scott McCloud. Sim, o verbo está no passado. Ivy morreu em um acidente de carro em 2022. Às vezes a vida realmente imita a arte de uma forma bem cruel.
Minha opinião sobre o roteiro é a seguinte: ele levanta muitos temas, mas raramente se aprofunda muito neles ou escolhe uma visão sobre a ideia e se compromete com ela. Durante a leitura você fica querendo um pouco mais de recheio naquele pastel, mas ele vem meio vazio.
O recurso narrativo usado para dar profundidade às reflexões propostas são as frequentes conversas de David com a morte durante passeios e jogos de xadrez. É um clichê. Aqui a morte aparece personificada no falecido tio-avô de David, o que ajuda os personagens a andarem no meio da rua, sentarem no diner ou na praça para jogar. Até funciona um pouco, As conversas são interessantes, mas ainda assim poderiam ser mais aprofundadas ou fazer David tirar conclusões delas, encontrar respostas suas. Acontece menos dos que eu gostaria, mas ainda assim são cenas legais.
Aliás, os textos são bem bons. tanto a narração em primeira pessoa quanto os diálogos. É importante ressaltar que eu li o original, em inglês. Nunca dá para botar a mão no fogo por traduções.
Para além do texto, a parte visual da hq é maravilhosa. Obviamente, McCloud domina toda parte formal e usa esse conhecimento em prol da narrativa visual, criando um ritmo impecável, que te mantém preso à leitura ao longo de todas as 500 páginas, o que é um feito por si só.
O autor usa quase todos os truques que tem nas mangas: narração visual silenciosa; cenas fora de requadro (Will Eisner na veia), splash pages em momentos reflexão ou surpresa, requadros que sangram para fora do papel; linhas de movimento de mangá para cenas de ação, diferentes formatos de balões de fala e boxes de narração para criar diferentes vozes; várias técnicas de desenho e de layout para acelerar ou quase parar o tempo, pedaços de páginas em branco para criar uma transição lenta entre as cenas; variação de tipografia para criar sons; balões de fala que capturam o barulho das vozes em uma calçada lotada; variação entre cenários e fundos incrivelmente detalhados ou completamente vazios para controlar o foco do leitor; e, certamente, outras técnicas que estou me esquecendo agora. É um show a parte e vale muito a pena prestar atenção nisso durante a leitura.
Já o estilo de desenho varia um pouco entre o realismo simplificado dos quadrinhos alternativos americanos (especialmente dos anos 90), o cartum ocidental e um pouco de mangá. A arte é toda em preto, branco e azul, que dá volume, sombras e profundidade. Os rostos são particularmente expressivos nas cenas mais intimas, em que se precisa entender a reação dos personagens por meio de comunicação não verbal, apenas com o olhar, um leve sorriso ou a mudança das sobrancelhas. Os enquadramentos também são sempre eficientes e, por vezes, especialmente interessantes.
Tudo isso faz de O Escultor uma graphic novel interessante, sensível, cuidadosa, com um plural de temas para reflexão (ainda que não sejam particularmente originais ou aprofundados), e mais importante, fácil e divertida de ler. Certamente vale o tempo dedicado à leitura. Pronto, deu 500 páginas?
Nenhum comentário:
Postar um comentário