O Desaparecimento de Josef Mengele é a adaptação em quadrinhos do premiado livro do autor francês Olivier Guez sobre as décadas em que o médico nazista conhecido como Anjo da Morte viveu fugindo da lei pela América do Sul. A HQ conta com roteiro do também francês Alexis Nolent (aka Matz), desenhos/pintura do franco-alemão Jörg Mailliet e cores da francesa Sandra Desmazières.
A obra não foca nos horrores cometidos pelo médico no campo de extermínio de Auschwitz durante a segunda guerra mundial, mas no período em que ele viveu exilado escondido entre Argentina, Paraguai e Brasil, do fim dos anos 40 até o final de sua vida em 1979.
Isso torna a graphic novel mais palatável, evitando retratar os crimes cometidos por ele, dignos de revirar o estomago de qualquer um, e criando uma narrativa focada nos altos e baixos da vida no exílio e o declínio da saúde mental de Mengele, que flerta com a paranoia e loucura nos seus últimos anos, já quase esquecido pela família que o sustentou financeiramente durante 3 décadas.
Como vemos todo esse período pela perspectiva de Mengele, às vezes quase torcemos para que ele consiga escapar da perseguição do Mossad israelense pelo interior do Brasil ou que ele não enlouqueça após passar anos quase completamente sozinho em uma pequena casa no que parece ser uma favela.
É uma sensação curiosa ter que ficar se lembrando de que estamos seguindo a trajetória de um vilão. Não que a HQ passe pano para qualquer crime cometido pelo nazista, mas a narrativa de fuga é tão imersiva que essa reação acontece espontaneamente. Ou pelo menos aconteceu para mim.
No fim, é um alívio saber que, apesar de nunca ter sido capturado e nunca ter enfrentado o julgamento e punição que merecia, Mengele não viveu exatamente bem, não passou a vida aproveitando férias nos trópicos. Apesar de alguns períodos confortáveis, especialmente na Argentina de Perón nos anos 50, o alemão passou a maior parte do tempo fugindo e, aos poucos, vivendo em situações cada vez piores. Também foi ficando cada vez mais sozinho, vendo suas esposas e filhos o abandonarem e sua família se afastar.
A arte da HQ consegue representar visualmente essa atmosfera com precisão. Os desenhos de Jörg Mailliet variam bastante entre traços mais realistas e pinceladas mais expressionistas. Às vezes isso funciona bem, quando retrata a decadência mental do protagonista, outras vezes acaba por prejudicar um pouco o entendimento do cenário real, do mundo em torno de Megele. Já as cores de Sandra Desmazières são perfeitas. Complementam bem os desenhos e dão o tom que a história precisa.
O roteiro também funciona muito bem. O maior problema de histórias que cobrem um período tão longo costuma ser o excesso de pulos temporais, o que acaba por tirar o leitor da história, destruindo a imersão e o ritmo da narrativa. Matz consegue evitar esse problema. As cenas se desenvolvem com naturalidade e ritmo certos, com bons diálogos que não parecem artificiais ou telegráficos, mas bastante realistas, e personagens bem construídos, com personalidade.
Ou seja, uma bela graphic novel, que funciona bem por si só, evitando parecer um resuminho de um livro mais complexo. Uma leitura prazerosa apesar do protagonista ser um monstro e ter cometido crimes bárbaros e nunca ter se arrependido ou pagado pelo que fez.
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