Eu curto muito os desenhos do Raphael Grampá e lembro de ter adorado ler a primeira hq dele, Mesmo Delivery, uns 15 anos atrás. Era um conto tarantinesco sobre dois homens pagos para transportar por caminhão uma carga secreta e as situações esquisitas e violentas que eles enfrentaram em uma estrada estadunidense. Nunca mais li nada dele, mas quando vi um gibi do Batman escrito e desenhado por ele na prateleira da loja, soube que tinha que ler. E a hq entregou muito mais do que eu esperava. Ela também tem problemas, mas mais do que tudo, ela tem muito. Mais é mais!
Não vou nem tentar comentar a história na ordem em que ela foi contada por Grampá, mas destacar o que é mais importante ou que mais me chamou atenção. Para começar, o titulo da mini série não é só um nome legal, mas faz parte da história.
É que, quando pequeno, Bruce Wayne ficava assustado com as gárgulas no alto da mansão gótica da sua família, que ele pensava serem grandes morcegos. Sua mãe lhe explicou, então, que uma gárgula é um demônio que caiu do céu, quebrou sua asa e foi cuidado por um humano bondoso. Como agradecimento, prometeu proteger o homem e outras pessoas boas como ele. Parece obvio então, que Bruce, já adulto, tenha usado essa ideia para criar o Batman. É uma boa imagem, mas a ideia vai além.
É o seguinte: Nessa história, Bruce Wayne não é um cara bonzinho. Nunca foi. Mesmo antes do assassinato dos seus pais, ele já tinha dentro dele um inclinação para a violência e, talvez, até mesmo para a maldade. Isso se revela quando, após ver seus pais serem mortos, o menino Bruce escapa dos olhos de Alfred e é encontrado descendo o cacete em um mendigo enquanto dizia que ele tinha responsável pelo crime. Brutal como um demônio. Acho uma ideia legal, interessante.
Para tratar o trauma, o jovem foi internado na ala infantil do Asilo Arkam, Que ainda era uma instituição respeitada. Bruce foi tratado por um médico que experimentava com pontos de energia no corpo humano. Inicialmente, parece ser algo parecido com acupuntura, mas ia muito além e tentava potencializar e até coletar energia positiva e até negativa também, só pela ciência, é claro! Naturalmente, esse fake science mambo jambo leva o médico a fazer experiências em pacientes.
O importante aqui são 3 coisas: essas energias aí sobrenaturais são reais, o pequeno Wayne foi vitima dessas experiencias, e o psiquiatra alterou na mente de Bruce a história contada por sua mãe. Agora o demônio que caia e quebrava a asa, virava o diabo que destruiria a humanidade. Ou seja, a grande questão da história é: será que o Batman é o demônio Bruce, que caiu e que agora vai se tornar a gárgula protetora de Gotham? Ou será que o Batman vai cair e se tornar o demônio que vai destruir a humanidade com sua fúria?
O discípulo do médico e o culto secreto gigante que se formou em torno dele ao longo desses anos aposta no segundo e vai fazer de tudo para garantir que isso aconteça. É uma parada profética, é um fim em si mesmo. Não tem um para que. Já são ideias suficientes para uma mini série em 4 partes? Não estamos nem na metade.
Guarda aí: Bruce é violento por natureza, desde criança (ideia interessante na minha opinião, que leva a crer que o Batman foi criado como forma de lidar e aplicar para o bem essa violência inata); energias benéficas e maléficas que emanam do corpo não só existem como podem ser ampliadas e aplicadas. E tem um culto em torno da ideia de que um demônio caído em Gotham vai virar o diabo e destruir a humanidade (meh, essa ideia em si não é tão interessante. Só tem uso como um meio para forçar o Batman a se revelar como a gárgula ou o diabo. Podia ter sido outro meio).
Em paralelo a tudo isso, tem um serial killer à solta em Gotham. Um detetive Jim Gordon de meia idade está tentando solucionar o caso com umas ajuda do Batman, apesar de boa parte dos policiais e do comissário não verem isso com bons olhos e considerarem o morcegão um vigilante perigoso.
No inicio da hq, essa história parece central, mas aos poucos vai ficando cada vez mais secundária. Ao final, fica claro que a serial killer é uma mulher que consegue enxergar a aura das pessoas. Quando os pais dela perceberam que a jovem era mística ou uma x-man ou algo assim, a entregaram para um padre cuidar dela ou exorcizá-la ou sei lá. O padre era do mal e entregou ela para o psiquiatra maligno da ala infantil do Arkam. Não lembro como ela escapou.
Enfim, hoje ela consegue enxergar quem foram as vitimas dos experimentos no asilo, agora adultas. Como essas pessoas foram injetadas com energia negativa e têm uma aura negativa, a jovem mística está assassinando todas elas de uma forma ritualística, que inclui fazer uma acupuntura com agulhas mortais para dissipar essa energia or something.
Além disso, ela vai se vingar do padre, que também faz parte de uma tal de uma seita das mariposas. Essa não tem nada a ver com o Batman, aparentemente. De alguma forma, o padre extrai uma força sobrenatural das mariposas que permite que ele... não sei, sério. No final das contas, ele captura os pais da jovem mística e coloca eles em casulos, para se transformarem em mariposas, eu deduzo. Ao mesmo tempo, ele vai se transformando em um monstro ou demônio ou sei lá o que, que termina virando pó. Honestamente, não consegui entender nada. E mesmo se eu tivesse entendido, parece que essa seria uma outra história do Batman e do Gordon investigando essa magia da mariposa aí. Poderia até ser legal, mas a ligação com a história principal é mínima.
Bom, de volta para a história principal, então. Logo na primeira parte da mini série, Batman percebe que mendigos estão sumindo e descobre que eles estão sendo escravizados para trabalhar fábricas de explosivos. Ele vai atrás, dá porrada em um monte de capangas até chegar no chefão, um homem perturbado que chora enquanto luta e assassina suas vitimas. Ele têm obsessão por um cartoon da década de 30 e desenha pequenas imagens em giz de cera dele mesmo fazendo crueldades. Ele confessa que esses são seus pensamentos e que eles doem. Provavelmente é por isso que ele chora enquanto desce o cacete no Batman e o deixa desacordado na fábrica prestes a explodir. Como a operação de fabricação do TNT com mendigos escravizados foi descoberta, melhor explodir tudo a deixar provas, i guess.
Depois de tomar porrada do vilão uma segunda vez, Batman finalmente o pega e o espanca brutalmente em frente a um monte de gente, como o pequeno Bruce fez com o homem que ele achava que era o assassino do seus pais. De novo, Bruce Wayne não é um cara bonzinho. Ele tem dentro dele um inclinação para a violência e, talvez, até mesmo para a maldade. Outra questão que começa a aparecer é por que mendigos? Por que Bruce criança bateu em um mendigo e por que agora o vilão e o culto (não vou guardar segredo, o culto queria produzir quantidades gigantescas de explosivos pra causar o caos na cidade quando o Batman finalmente virasse o diabo) escravizaram mendigos?
Bom, os mendigos terem sumido não chama atenção de absolutamente ninguém além de uma jovem ativista, Nia, que começa a fazer discursos virais nas redes sociais e organizar protestos. Logo a reputação dela é destruída por fake news e pela mídia tradicional, controlada pelos magnatas de Gotham. O culto do médico da energia maligna já alertava que uma sociedade tem um espírito coletivo, uma alma, uma aura, algo assim. O espirito de Gotham é escuro, maléfico, podre. Não é à toa que o diabo surgirá ali.
As elites de Gotham em seus clubes sociais exclusivos não ligam para nada disso, é claro. Elas financiaram por anos as pesquisas no Arkam apenas para manter o controle sobre a 'tecnologia sobrenatural" e seu uso. Não que isso tenha funcionado exatamente. De qualquer forma, elas têm alguma influencia sobre o culto e sobre a policia. O plano é que, assim que o culto destruir a cidade podre, que precisa de uma limpeza (aka gente pobre morta), esses magnatas vão aparecer como figuras bondosas, os únicos capazes de reconstruir a cidade destruída, com doações e financiamento, se tornando ainda mais poderosos e influentes.
Anota aí a ideia 173: Batman tomando consciência social, deixando de ser um bilionário herdeiro egocêntrico e derrotando a corrupção das elites nojentas de Gotham. E como ele vai fazer isso? Ao lado da jovem ativista Nia e de um coletivo de morlocks, os Ratz, formado por mendigos que se esconderam nos esgotos da cidade para fugir dos sequestros e de serem escravizados pelo assassino que chora. Pronto, acabaram as ideias.
Não, peraí, muita calma nessa hora. E o coringuinha? Que!? Sim, o coringa mirim, a criança completamente perturbada que adora desenhar crueldades (assim como o assassino que chora) e que rabisca até na própria cara um sorriso desproporcional bizarro. O moleque que ri de forma descontrolada quando fala, vê e participa de violência e caos.
Bom, a ideia 174 é assim: o assassino que chora foi preso após o Batman espancá-lo e agora vai ser transferido para um presidio fora da cidade. Claro que ele se solta, mata os guardas dentro da van de transporte de presos e se vê no meio do nada. Ele encontra um barraco perto de um trailer park onde mora o menino coringa white trash. Eles começam uma amizade por meio da troca de desenhos de crueldades e o assassino resolve adotar a criança perturbada. O cara do trailer não liga. Nem era filho dele mesmo. Os dois resolvem partir para a cidade a tempo de participarem do grand finale.
A parada funciona assim. Os sinos tocam. Esse é o sinal que acorda todos os sleeping cells, todos os membros do culto bizarro espalhados pela cidade. Eles começam a destruir tudo, matar geral, explodir o que tiver pela frente. O Batman se alia aos mendigos e ativistas e parte para a porrada, tentando chegar até o líder do culto.
Ele chega, só para tomar mais porrada de um capanga monstrão cheio de energia maligna que não pode nem morrer e assassina e destrói todo mundo que vê pela frente. O morcego vai ficando cada vez mais enfurecido, cada vez mais violento, perdendo o controle. Coloca explosivos dentro do monstrão e explode o cara. Parte para cima do líder do culto para matá-lo. O velho acha ótimo! "Isso! Venha para o lado negro da força! Se transforme no diabo de Gotham!" O Batman quer saber por que ele? O velho responde que o menino Bruce não foi infectado pela energia negativa no Arkam. Na verdade, ele era fonte do mal. O médico tinha colhido a energia maléfica do pequeno Wayne. Ele sempre foi o diabo! Bruce entra em crise. "Não, eu não sou só maldade e violência. Eu também posso ser bom".
Eis que chegam em cena o assassino que chora e o menino coringa. Um querendo vingança contra o velho por ter o excomungado do culto depois que ele foi preso, o outro porque adora violência e rir! Eles batem em esfaqueiam e matam! O prazer é tamanho que o assassino que chora começa a rir de forma maníaca que nem o coringuinha! O menino ataca o Batman, consegue esfaqueá-lo, mas acaba tomando uma porrada porque, afinal de contas, é uma criança contra o Batman. O assassino é atacado por inúmeros membros do culto. Antes de cair do prédio em direção à morte, ele pede ao morcegão para que cuide do filho adotivo dele, o coringuinha.
Com o líder do culto morto, seus seguidores derrotados ou mortos, os mendigos escravizados resgatados pelos Ratz, e o caos meio que terminado, Batman se recolhe à Batcaverna, fazendo um acordo com os mendigos e basicamente os transformando em um exército de Robins. Independentes mas aliados. E Bruce Wayne investe no Asilo Arkam para que o lugar volte a ser uma instituição médica bem vista e capaz de ajudar quem precisa, incluindo o coringuinha e outras crianças que claramente vão se transformar nos vilões clássicos do homem-morcego.
Os magnatas em seu clube dos bilionários ajudam a cidade a se reconstruir da forma como planejaram. Super-ricos nunca perdem. Dezenas de milhares deixam a cidade destruída, inclusive a jovem mística. E uma caralhada de ideias interessantes ficam sem espaço suficiente para serem desenvolvidas da forma que mereciam.
Falando assim, parece que eu não curti a mini série. Mas apesar das falhas, eu curti bastante. Para começar, os desenhos são fenomenais. A variação de estilos dentro do traço de Grampá é impressionante, a capacidade de compor quadros cinematográficos é privilegiada, os detalhes de cada desenho são quase infinitos, a composição das páginas é inteligente e funcional, com momentos brilhantes, o domínio sobre o ritmo da história é invejável, o humor eventual faz rir de verdade e ele entende o espírito do personagem, as principais motivações de Bruce Wayne e do Batman. Além disso, dá para perceber um desenvolvimento dos personagens entre o inicio e o fim da história.
O modo como Grampá organiza e conta a história também é legal. Ele vai revelando aos poucos os segredos e montando o quebra-cabeças de forma muito competente. Por isso, valeu muito à pena ler Gárgula de Gotham. Foi divertido e interessante. Eu só gostaria que tivessem sido umas 3 ou 4 mini séries separadas para que cada uma das muitas ideias atingissem todo o seu potencial.