sábado, 12 de setembro de 2026

Batman: Gárgula de Gotham

Eu curto muito os desenhos do Raphael Grampá e lembro de ter adorado ler a primeira hq dele, Mesmo Delivery, uns 15 anos atrás. Era um conto tarantinesco sobre dois homens pagos para transportar por caminhão uma carga secreta e as situações esquisitas e violentas que eles enfrentaram em uma estrada estadunidense. Nunca mais li nada dele, mas quando vi um gibi do Batman escrito e desenhado por ele na prateleira da loja, soube que tinha que ler. E a hq entregou muito mais do que eu esperava. Ela também tem problemas, mas mais do que tudo, ela tem muito. Mais é mais!

Não vou nem tentar comentar a história na ordem em que ela foi contada por Grampá, mas destacar o que é mais importante ou que mais me chamou atenção. Para começar, o titulo da mini série não é só um nome legal, mas faz parte da história.

É que, quando pequeno, Bruce Wayne ficava assustado com as gárgulas no alto da mansão gótica da sua família, que ele pensava serem grandes morcegos. Sua mãe lhe explicou, então, que uma gárgula é um demônio que caiu do céu, quebrou sua asa e foi cuidado por um humano bondoso. Como agradecimento, prometeu proteger o homem e outras pessoas boas como ele. Parece obvio então, que Bruce, já adulto, tenha usado essa ideia para criar o Batman. É uma boa imagem, mas a ideia vai além.

É o seguinte: Nessa história, Bruce Wayne não é um cara bonzinho. Nunca foi. Mesmo antes do assassinato dos seus pais, ele já tinha dentro dele um inclinação para a violência e, talvez, até mesmo para a maldade. Isso se revela quando, após ver seus pais serem mortos, o menino Bruce escapa dos olhos de Alfred e é encontrado descendo o cacete em um mendigo enquanto dizia que ele tinha responsável pelo crime. Brutal como um demônio. Acho uma ideia legal, interessante.

Para tratar o trauma, o jovem foi internado na ala infantil do Asilo Arkam, Que ainda era uma instituição respeitada. Bruce foi tratado por um médico que experimentava com pontos de energia no corpo humano. Inicialmente, parece ser algo parecido com acupuntura, mas ia muito além e tentava potencializar e até coletar energia positiva e até negativa também, só pela ciência, é claro! Naturalmente, esse fake science mambo jambo leva o médico a fazer experiências em pacientes.

O importante aqui são 3 coisas: essas energias aí sobrenaturais são reais, o pequeno Wayne foi vitima dessas experiencias, e o psiquiatra alterou na mente de Bruce a história contada por sua mãe. Agora o demônio que caia e quebrava a asa, virava o diabo que destruiria a humanidade. Ou seja, a grande questão da história é: será que o Batman é o demônio Bruce, que caiu e que agora vai se tornar a gárgula protetora de Gotham? Ou será que o Batman vai cair e se tornar o demônio que vai destruir a humanidade com sua fúria?

O discípulo do médico e o culto secreto gigante que se formou em torno dele ao longo desses anos aposta no segundo e vai fazer de tudo para garantir que isso aconteça. É uma parada profética, é um fim em si mesmo. Não tem um para que. Já são ideias suficientes para uma mini série em 4 partes? Não estamos nem na metade. 

Guarda aí: Bruce é violento por natureza, desde criança (ideia interessante na minha opinião, que leva a crer que o Batman foi criado como forma de lidar e aplicar para o bem essa violência inata); energias benéficas e maléficas que emanam do corpo não só existem como podem ser ampliadas e aplicadas. E tem um culto em torno da ideia de que um demônio caído em Gotham vai virar o diabo e destruir a humanidade (meh, essa ideia em si não é tão interessante. Só tem uso como um meio para forçar o Batman a se revelar como a gárgula ou o diabo. Podia ter sido outro meio).

Em paralelo a tudo isso, tem um serial killer à solta em Gotham. Um detetive Jim Gordon de meia idade está tentando solucionar o caso com umas ajuda do Batman, apesar de boa parte dos policiais e do comissário não verem isso com bons olhos e considerarem o morcegão um vigilante perigoso.

No inicio da hq, essa história parece central, mas aos poucos vai ficando cada vez mais secundária. Ao final, fica claro que a serial killer é uma mulher que consegue enxergar a aura das pessoas. Quando os pais dela perceberam que a jovem era mística ou uma x-man ou algo assim, a entregaram para um padre cuidar dela ou exorcizá-la ou sei lá. O padre era do mal e entregou ela para o psiquiatra maligno da ala infantil do Arkam. Não lembro como ela escapou.

Enfim, hoje ela consegue enxergar quem foram as vitimas dos experimentos no asilo, agora adultas. Como essas pessoas foram injetadas com energia negativa e têm uma aura negativa, a jovem mística está assassinando todas elas de uma forma ritualística, que inclui fazer uma acupuntura com agulhas mortais para dissipar essa energia or something.

Além disso, ela vai se vingar do padre, que também faz parte de uma tal de uma seita das mariposas. Essa não tem nada a ver com o Batman, aparentemente. De alguma forma, o padre extrai uma força sobrenatural das mariposas que permite que ele... não sei, sério. No final das contas, ele captura os pais da jovem mística e coloca eles em casulos, para se transformarem em mariposas, eu deduzo. Ao mesmo tempo, ele vai se transformando em um monstro ou demônio ou sei lá o que, que termina virando pó. Honestamente, não consegui entender nada. E mesmo se eu tivesse entendido, parece que essa seria uma outra história do Batman e do Gordon investigando essa magia da mariposa aí. Poderia até ser legal, mas a ligação com a história principal é mínima.

Bom, de volta para a história principal, então. Logo na primeira parte da mini série, Batman percebe que mendigos estão sumindo e descobre que eles estão sendo escravizados para trabalhar fábricas de explosivos. Ele vai atrás, dá porrada em um monte de capangas até chegar no chefão, um homem perturbado que chora enquanto luta e assassina suas vitimas. Ele têm obsessão por um cartoon da década de 30 e desenha pequenas imagens em giz de cera dele mesmo fazendo crueldades. Ele confessa que esses são seus pensamentos e que eles doem. Provavelmente é por isso que ele chora enquanto desce o cacete no Batman e o deixa desacordado na fábrica prestes a explodir. Como a operação de fabricação do TNT com mendigos escravizados foi descoberta, melhor explodir tudo a deixar provas, i guess.

Depois de tomar porrada do vilão uma segunda vez, Batman finalmente o pega e o espanca brutalmente em frente a um monte de gente, como o pequeno Bruce fez com o homem que ele achava que era o assassino do seus pais. De novo, Bruce Wayne não é um cara bonzinho. Ele tem dentro dele um inclinação para a violência e, talvez, até mesmo para a maldade. Outra questão que começa a aparecer é por que mendigos? Por que Bruce criança bateu em um mendigo e por que agora o vilão e o culto (não vou guardar segredo, o culto queria produzir quantidades gigantescas de explosivos pra causar o caos na cidade quando o Batman finalmente virasse o diabo) escravizaram mendigos?

Bom, os mendigos terem sumido não chama atenção de absolutamente ninguém além de uma jovem ativista, Nia, que começa a fazer discursos virais nas redes sociais e organizar protestos. Logo a reputação dela é destruída por fake news e pela mídia tradicional, controlada pelos magnatas de Gotham. O culto do médico da energia maligna já alertava que uma sociedade tem um espírito coletivo, uma alma, uma aura, algo assim. O espirito de Gotham é escuro, maléfico, podre. Não é à toa que o diabo surgirá ali.

As elites de Gotham em seus clubes sociais exclusivos não ligam para nada disso, é claro. Elas financiaram por anos as pesquisas no Arkam apenas para manter o controle sobre a 'tecnologia sobrenatural" e seu uso. Não que isso tenha funcionado exatamente. De qualquer forma, elas têm alguma influencia sobre o culto e sobre a policia. O plano é que, assim que o culto destruir a cidade podre, que precisa de uma limpeza (aka gente pobre morta), esses magnatas vão aparecer como figuras bondosas, os únicos capazes de reconstruir a cidade destruída, com doações e financiamento, se tornando ainda mais poderosos e influentes.

Anota aí a ideia 173: Batman tomando consciência social, deixando de ser um bilionário herdeiro egocêntrico e derrotando a corrupção das elites nojentas de Gotham. E como ele vai fazer isso? Ao lado da jovem ativista Nia e de um coletivo de morlocks, os Ratz, formado por mendigos que se esconderam nos esgotos da cidade para fugir dos sequestros e de serem escravizados pelo assassino que chora. Pronto, acabaram as ideias.

Não, peraí, muita calma nessa hora. E o coringuinha? Que!? Sim, o coringa mirim, a criança completamente perturbada que adora desenhar crueldades (assim como o assassino que chora) e que rabisca até na própria cara um sorriso desproporcional bizarro. O moleque que ri de forma descontrolada quando fala, vê e participa de violência e caos.

Bom, a ideia 174 é assim: o assassino que chora foi preso após o Batman espancá-lo e agora vai ser transferido para um presidio fora da cidade. Claro que ele se solta, mata os guardas dentro da van de transporte de presos e se vê no meio do nada. Ele encontra um barraco perto de um trailer park onde mora o menino coringa white trash. Eles começam uma amizade por meio da troca de desenhos de crueldades e o assassino resolve adotar a criança perturbada. O cara do trailer não liga. Nem era filho dele mesmo. Os dois resolvem partir para a cidade a tempo de participarem do grand finale.

A parada funciona assim. Os sinos tocam. Esse é o sinal que acorda todos os sleeping cells, todos os membros do culto bizarro espalhados pela cidade. Eles começam a destruir tudo, matar geral, explodir o que tiver pela frente. O Batman se alia aos mendigos e ativistas e parte para a porrada, tentando chegar até o líder do culto.

Ele chega, só para tomar mais porrada de um capanga monstrão cheio de energia maligna que não pode nem morrer e assassina e destrói todo mundo que vê pela frente. O morcego vai ficando cada vez mais enfurecido, cada vez mais violento, perdendo o controle. Coloca explosivos dentro do monstrão e explode o cara. Parte para cima do líder do culto para matá-lo. O velho acha ótimo! "Isso! Venha para o lado negro da força! Se transforme no diabo de Gotham!" O Batman quer saber por que ele? O velho responde que o menino Bruce não foi infectado pela energia negativa no Arkam. Na verdade, ele era fonte do mal. O médico tinha colhido a energia maléfica do pequeno Wayne. Ele sempre foi o diabo! Bruce entra em crise. "Não, eu não sou só maldade e violência. Eu também posso ser bom".

Eis que chegam em cena o assassino que chora e o menino coringa. Um querendo vingança contra o velho por ter o excomungado do culto depois que ele foi preso, o outro porque adora violência e rir! Eles batem em esfaqueiam e matam! O prazer é tamanho que o assassino que chora começa a rir de forma maníaca que nem o coringuinha! O menino ataca o Batman, consegue esfaqueá-lo, mas acaba tomando uma porrada porque, afinal de contas, é uma criança contra o Batman. O assassino é atacado por inúmeros membros do culto. Antes de cair do prédio em direção à morte, ele pede ao morcegão para que cuide do filho adotivo dele, o coringuinha.

Com o líder do culto morto, seus seguidores derrotados ou mortos, os mendigos escravizados resgatados pelos Ratz, e o caos meio que terminado, Batman se recolhe à Batcaverna, fazendo um acordo com os mendigos e basicamente os transformando em um exército de Robins. Independentes mas aliados. E Bruce Wayne investe no Asilo Arkam para que o lugar volte a ser uma instituição médica bem vista e capaz de ajudar quem precisa, incluindo o coringuinha e outras crianças que claramente vão se transformar nos vilões clássicos do homem-morcego.

Os magnatas em seu clube dos bilionários ajudam a cidade a se reconstruir da forma como planejaram. Super-ricos nunca perdem. Dezenas de milhares deixam a cidade destruída, inclusive a jovem mística. E uma caralhada de ideias interessantes ficam sem espaço suficiente para serem desenvolvidas da forma que mereciam.

Falando assim, parece que eu não curti a mini série. Mas apesar das falhas, eu curti bastante. Para começar, os desenhos são fenomenais. A variação de estilos dentro do traço de Grampá é impressionante, a capacidade de compor quadros cinematográficos é privilegiada, os detalhes de cada desenho são quase infinitos, a composição das páginas é inteligente e funcional, com momentos brilhantes, o domínio sobre o ritmo da história é invejável, o humor eventual faz rir de verdade e ele entende o espírito do personagem, as principais motivações de Bruce Wayne e do Batman. Além disso, dá para perceber um desenvolvimento dos personagens entre o inicio e o fim da história.

O modo como Grampá organiza e conta a história também é legal. Ele vai revelando aos poucos os segredos e montando o quebra-cabeças de forma muito competente. Por isso, valeu muito à pena ler Gárgula de Gotham. Foi divertido e interessante. Eu só gostaria que tivessem sido umas 3 ou 4 mini séries separadas para que cada uma das muitas ideias atingissem todo o seu potencial.

terça-feira, 8 de setembro de 2026

Scott McCloud esculpe sua graphic novel semi autobiográfica

Scott McCloud fez seu nome nos EUA com Zot!, uma hq independente de sucesso nos anos 80. Depois, foi atrás de estudar os quadrinhos como linguagens, com caraterísticas formais bem definidas e independentes de outras mídias com as quais é frequentemente comparado, como literatura e cinema. Lançou 3 livros sobre o tema e passou a ser considerado uma referencia nessa área, ao lado do grande Will Eisner. Ao longo dos anos 90 e 2000 fez alguns trabalhos autorais pontuais, mas foi em 2015 que ele finalmente escreveu sua primeira graphic novel, um tijolo de quase 500 páginas chamado O Escultor.

Como é de se imaginar, a historia segue um jovem escultor que foi considerado promissor e patrocinado quando ainda adolescente, mas nos anos seguintes caiu em esquecimento ao ponto de quase abandonar a arte para conseguir pagar aluguel e comer com o salário de empregos sem perspectiva de crescimento.

David Smith é estourado, fala o que não deve, comete frequentes sincericídios e tem uma fixação em não ser esquecido. Quer de toda a forma ser reconhecido para deixar um legado e, de certa forma, se eternizar. O desejo faz mais sentido quando entendemos que Davíd perdeu seu pai, mãe e irmã. A relação dele com a morte, a memória e o esquecimento é mais intensa do que a da maioria das pessoas. Essa intensidade e imprudência o levam a vender a alma em um diner qualquer.

Mas quais são os termos desse acordo com a morte? David ganharia poderes de esculpir, moldar materiais com as próprias mão para tornar realidade qualquer escultura que ele imaginasse, sem dificuldades relacionadas a dinheiro, materiais, ferramentas, etc. Em troca, morreria em 200 dias. Ou seja, isso muda completamente a relação do protagonista com o tempo e com a própria vida, além de informar todas as decisões dele dali para frente. Ou pelo menos deveria, se David não fosse tão impulsivo.

SIm, eu também não imaginava que a graphic novel teria um aspecto sobrenatural faustiano, que enquadra a história e a move daquele momento para frente. Apesar disso, a trama se move de forma mais mundana, com acontecimentos mais comuns, slice of life, como esperado. Inicialmente, David se frustra quando seus primeiros - e grandiosos - trabalhos feitos com seus novos poderes são rejeitados por críticos e galeristas. Ele entra em pânico achando que não vai conseguir cumprir seu propósito de vida nos dias que lhe restam e sua saúde mental declina enquanto ele é despejado e o dinheiro vai acabando.

Mas David acaba sendo salvo por Meg, uma atriz amadora que sabia por alto quem ele era. Isso porque, uns dias antes, ele tinha sido alvo de uma performance artística no meio da rua, em que ela atuava como um anjo que descia do céu para anunciar ao participante involuntário da peça teatral que "tudo vai ficar bem". Sim, um tanto absurdo. A performance de guerrilha em si é meio implausível, assim como e a atriz abrigar quase desconhecidos em dificuldades no apartamento que divide com uma amiga.

Claro que David logo se apaixona por Meg e, com o tempo, ela vai acabar se apaixonando por ele também. E claro que a relação está fadada a dor, já que ele vai morrer em pouco mais de 6 meses. Ele sabe que não devia se envolver, mas não resiste e vai em frente mesmo assim. 

Sinceramente eu vejo ai mais uma prova da personalidade imatura e impulsiva do protagonista do que um comentário importante sobre qualquer coisa. Talvez sobre viver cada dia de forma independente e significativa, carpe diem e coisa e tal, ou talvez sobre a única certeza que temos ser a morte e como devemos viver frente a esse imperativo. Mas a história em si não diz muita coisa. Cabe a você extrair algum significado.

Meg é quase um espelho de David. Ela é tão intensa, imprudente e impulsiva quanto ele, mas positiva, vibrante, cheia de vida e ideias. Ela contrabalanceia a negatividade do protagonista e da a ele um equilíbrio e uma chance prática de trabalhar nas obras de arte que ele quer deixar para o mundo.

Mas aí ele esbarra no problema oposto do que tinha encontrado antes, quando esculpiu impulsivamente uma série de esculturas autobiográficas grandiosas, mas sem foco. Dessa vez ele não sabe o que quer dizer, o que quer esculpir. De nada adianta dominar a matéria, moldar em minutos qualquer coisa que se imagine, se você não imaginar nada interessante.

Nesse ponto da história, David busca se inspirar em Meg, usando-a como um musa, como inspiração. Ela participa, mas se sente objetificada. Sente que ele só a vê como uma coisa a ser esculpida e não como uma pessoa. Não sei se isso é uma discussão no mundo da arte, se a própria figura da musa como fonte de inspiração para artistas é problematizada em círculos acadêmicos ou por artistas feministas, mas essa é a impressão que fica.

Apesar disso, em seus agradecimentos e considerações após o fim do livro, o autor deixa claro que tem alguns pontos em comum com David e que Meg certamente tem características da sua esposa Ivy. E que ele vê em Ivy uma fonte de inspiração para a sua arte.

Outra discussão interessante nesse meio da história é a decisão de David de usar seus poderes para fazer arte de rua. No caso, esculturas de todos os tipos com todos os materiais e em todas as partes da cidade. O pensamento do personagem é: se não querem dar visibilidade para a minha arte dentro das galerias, vou fazer ela visível fora das paredes tipicamente reservadas para ela.

É uma justificativa e um objetivo interessante, que democratiza o espaço para os artistas e o acesso a arte para a população. No entanto, isso implica em tomar para si espaços públicos e privados. Tudo isso - a arte em si e o uso do espaço - vai encontrar diferentes reações do público.

Nesse sentido, a história também demonstra como vai ficando cada vez mais difícil executar as esculturas quando todos os olhos e cameras da cidade estão te procurando por diferentes motivos. É algo complicado que leva artistas como Banksy a esconderem sua identidade e viverem em anonimato, se comunicando de forma bem restrita com o mundo por meio de um agente. Muitas vezes também pode ser necessário pensar a obra e dar instruções para terceiros a executarem.

Com o excesso de atenção, David abandona as esculturas de rua, até para não ser encontrado, já que ainda está fugindo do seu antigo landlord, a quem deve dinheiro por suas esculturas gigantes e pesadas terem quebrado o chão e terminado no andar de baixo do prédio, causando enormes prejuízos.

A conclusão da história começa com uma surpresa. Apesar de David estar a poucos dias da sua morte, ironicamente, o prazo de validade de Meg é que acaba antes. Pouco depois de descobrir que está grávida, ela é atropelada em sua bicicleta e morre no meio da rua. Ao mesmo tempo, a polícia encontra David - nem lembro se o procuravam pelos danos no prédio onde morava ou por "vandalismo" com suas esculturas de rua - e ele, na única cena de ação da hq, foge do apartamento e encontra ela caída no asfalto enquanto está prestes a ser preso.

Ele foge novamente, invade o canteiro de obras de uma construção que despejou moradores vulneráveis - em um comentário sobre o poder econômico dos capitalistas que pisam nas pessoas comuns ou algo do tipo, que não é bem desenvolvido - e ali mesmo começa a moldar o aço da construção dos arranha-céus. A noite chega, a neblina o ajuda a escapar da policia que o cerca, e ele consegue esculpir sua ultima escultura, sua grande obra prima. Enquanto está dando os últimos toques, ele é abatido por um sniper e cai lá do alto, morrendo na calçada. Se McCloud conhecesse Chico Buarque, certamente David cairia um pouco pro lado, atrapalhando o trânsito. Não é o caso.

Logo após a morte, a neblina vai embora revelando uma mega escultura gigante de Meg segurando um bebê, o filho que nenhum deles dois teriam. É cafona. A obra em si é brega. Como roteiro, o timming é excessivamente conveniente. Como mensagem... ivy realmente foi a musa de Scott McCloud. Sim, o verbo está no passado. Ivy morreu em um acidente de carro em 2022. Às vezes a vida realmente imita a arte de uma forma bem cruel.

Minha opinião sobre o roteiro é a seguinte: ele levanta muitos temas, mas raramente se aprofunda muito neles ou escolhe uma visão sobre a ideia e se compromete com ela. Durante a leitura você fica querendo um pouco mais de recheio naquele pastel, mas ele vem meio vazio.

O recurso narrativo usado para dar profundidade às reflexões propostas são as frequentes conversas de David com a morte durante passeios e jogos de xadrez. É um clichê. Aqui a morte aparece personificada no falecido tio-avô de David, o que ajuda os personagens a andarem no meio da rua, sentarem no diner ou na praça para jogar. Até funciona um pouco, As conversas são interessantes, mas ainda assim poderiam ser mais aprofundadas ou fazer David tirar conclusões delas, encontrar respostas suas. Acontece menos dos que eu gostaria, mas ainda assim são cenas legais.

Aliás, os textos são bem bons. tanto a narração em primeira pessoa quanto os diálogos. É importante ressaltar que eu li o original, em inglês. Nunca dá para botar a mão no fogo por traduções.

Para além do texto, a parte visual da hq é maravilhosa. Obviamente, McCloud domina toda parte formal e usa esse conhecimento em prol da narrativa visual, criando um ritmo impecável, que te mantém preso à leitura ao longo de todas as 500 páginas, o que é um feito por si só.

O autor usa quase todos os truques que tem nas mangas: narração visual silenciosa; cenas fora de requadro (Will Eisner na veia), splash pages em momentos reflexão ou surpresa, requadros que sangram para fora do papel; linhas de movimento de mangá para cenas de ação, diferentes formatos de balões de fala e boxes de narração para criar diferentes vozes; várias técnicas de desenho e de layout para acelerar ou quase parar o tempo, pedaços de páginas em branco para criar uma transição lenta entre as cenas; variação de tipografia para criar sons; balões de fala que capturam o barulho das vozes em uma calçada lotada; variação entre cenários e fundos incrivelmente detalhados ou completamente vazios para controlar o foco do leitor; e, certamente, outras técnicas que estou me esquecendo agora. É um show a parte e vale muito a pena prestar atenção nisso durante a leitura.

Já o estilo de desenho varia um pouco entre o realismo simplificado dos quadrinhos alternativos americanos (especialmente dos anos 90), o cartum ocidental e um pouco de mangá. A arte é toda em preto, branco e azul, que dá volume, sombras e profundidade. Os rostos são particularmente expressivos nas cenas mais intimas, em que se precisa entender a reação dos personagens por meio de comunicação não verbal, apenas com o olhar, um leve sorriso ou a mudança das sobrancelhas. Os enquadramentos também são sempre eficientes e, por vezes, especialmente interessantes.

Tudo isso faz de O Escultor uma graphic novel interessante, sensível, cuidadosa, com um plural de temas para reflexão (ainda que não sejam particularmente originais ou aprofundados), e mais importante, fácil e divertida de ler. Certamente vale o tempo dedicado à leitura. Pronto, deu 500 páginas?

Batman: Gárgula de Gotham

Eu curto muito os desenhos do Raphael Grampá e lembro de ter adorado ler a primeira hq dele, Mesmo Delivery, uns 15 anos atrás. Era um conto...