sábado, 15 de agosto de 2026

Batman: Colheita Maldita

Único super-herói clássico que não tem super poderes, Batman e suas histórias têm muitas facetas. As principais são: Batman detetive, que investiga mais do que bate para derrubar os figurões da máfia de Gotham; Batman da Liga da Justiça, que enfrenta super-vilões com poderem mágicos em cenários grandiosos; Batman Asilo Arkam, que enfrenta vilões perturbados que fazem Bruce Wayne enfrentar seus próprios fantasmas e saúde mental frágil; e por último, Batman terror, que enfrenta forças ocultas que desafiam o herói humano em histórias sobrenaturais. Colheita Maldita (Harvest Breed) é uma história curta que faz parte dessa ultima categoria, mas infelizmente não é uma boa representante do estilo.

Lançada originalmente em 2000 nos Estados Unidos, Colheita Maldita conta com roteiro e arte de George Pratt e coloca Batman para investigar o retorno de um serial killer que havia cometido alguns assassinatos 6 anos antes do início da história. Com sua pintura de técnica mista, Pratt cria uma atmosfera assustadora e onírica, confiando mais no expressionismo do que no realismo para contar a história. E aí já vem o primeiro problema da HQ: Nem o texto nem as imagens narram direito o que está acontecendo e o leitor fica perdido, tentando juntar os cacos da trama para entender o que diabos está acontecendo.

A arte de Pratt é linda e prende bastante a atenção, mas não narra muita coisa. Ela mais ilustra do que colabora com o storytelling. Na parte em que Bruce Wayne encontra o diário de um dos personagens, qualquer tentativa de criar arte sequencial que resulte em alguma narrativa é abandonada por completo, e as imagens passam, despudoradamente, a apenas ilustrar as palavras do diário. Isso não seria necessariamente um problema caso a proposta dessa obra fosse outra. Caso Pratt abandonasse a ideia de uma HQ e produzisse um livro ilustrado, com texto bem trabalhado para segurar sozinho a narrativa dos acontecimentos.

Mas não. O texto de Colheita Maldita é muito insuficiente para, por meio dos diálogos, exposições e os trecho do tal diário, contar a história de forma clara ou desenvolver a trama de uma forma que faça sentido e carregue o leitor pelos acontecimentos. Os diálogos deixam mais dúvidas do que dão respostas, daquela forma bem artificial como apenas personagens de filmes de segunda categoria falam. Os cortes temporais e espaciais são confusos e abruptos, mal resolvidos.

Tenta-se, então, explicar o que está rolando por meio de outros artifícios. O resultado é um excesso de exposições, com narrações em off do próprio Batman, balões de pensamento para entendermos o que o herói está fazendo (uma técnica abandonada lá nos anos 80), e ainda pior, balões de fala com o homem morcego nos explicando o que o desenho deveria estar narrando. Ou estaria ele falando sozinho porque está enlouquecendo? Aliás, por que mesmo ele está tão desequilibrado emocionalmente? Não dá pra entender.

Logo no inicio da história, Bruce Wayne está tendo sonhos em que o Batman age de forma tremendamente violenta e comete crimes. Desde quando? Isso é ligado a algum acontecimento recente? Eu não sei e a HQ nunca explica. Só sabemos que assim que os crimes do serial killer de seis anos antes recomeçam, os sonhos de Bruce param. Aparentemente isso é ainda mais preocupante do que os sonhos estarem acontecendo. Mas por que? É premonição, superstição? Sabe-se lá. O roteiro não se dá ao trabalho de explicar ou explorar.

Da mesma forma, logo que o Batman começa a investigar os novos assassinatos, ele já começa a se comportar como um babaca, tretando com o Comissário Gordon do nada, sendo violento com um guru haitiano do voodoo por nenhuma razão, ficando descontroladamente frustrado quando não consegue pegar o vilão na primeira tentativa, apesar de ter evitado o assassinato e salvo uma vida. E por que o morcegão tá tão on the edge assim? Vai saber. O roteiro também não sabe ou, pelo menos, não quer nos contar. Ok, vamos em frente.

Na história, o Batman tem uma sidekick inesperada: Luci Boudreaux, uma jovem vietnamita com poderes psíquicos que vive presa em uma torre pelo pai. Como o Batman chegou até ela, eu honestamente não me lembro, se é que o roteiro deixou claro. Fato é que descobrimos que Luci foi adotada e está trancafiada por ter relação com práticas ocultistas e rituais envolvendo forças demoníacas realizados durante a guerra do Vietnã. Pois é...

Luci explica algumas coisas para o Batman, dando as informações meio aos pedaços porque sim. Ela gosta de ser misteriosa, aparentemente. O que fica claro é que os assassinatos são ritualísticos e realizados em locais específicos com o intuito de invocar demônios e traze-los ao nosso mundo. O crime final fecharia um pentagrama de seis pontas ou algo do tipo, invocando assim o tinhoso, o cão, o mochila de criança. Como o morcegão deduz algumas dessas coisas é algo meio... obscuro.

Lá pras tantas, a jovem se manifesta psiquicamente durante o assassinato que o Batman consegue evitar em um trem e ele volta a visita-la na torre. Dessa vez, consegue acesso ao tal diário do pai da Luci, que revela que, após os rituais macabros de voodoo vietnamita que parecem se encaixar bem mais em um história do Hellboy do que do Batman, o cara ganhou poderes especiais e se transformou em um poderoso curandeiro, salvando vários colegas soldados na guerra do Vietnã. Depois ele teve que parar de usar os poderes porque descobriu que eles são do lado negro da força ou sei lá, não lembro. É algo meio mal explicado anyway e não faz muita diferença.

Na real, nada disso faz muita diferença porque logo depois o Batman deduz meio que do nada onde é a ultima ponta da cruz de sei lá quantas pontas e vai até lá evitar que o tal serial killer termine o serviço. Chegando ao local, descobre que o vilão que ele não conseguiu pegar seis anos atrás e que agora está prestes a invocar o diabo é... mãe da Luci, que logo se abre em uma conversa franca e confessa que cometeu todos esses assassinatos ritualísticos ao longo de vários anos porque tinha ciúmes da jovem e do pai adotivo terem algo em comum, essa ligação com forças ocultas da Baba Yaga vietnamita. Então ela decidiu... invocar o satan pra ele acabar com o mundo, eu acho? Scooby Doo tem vilões com motivações e decisões mais razoáveis e complexas, de verdade.

Pior, ao interferir no ritual, o Batman evitou que a parada toda se completasse, mas mesmo assim Lucifer resolveu dar as caras e atravessar pro nosso mundo ou sei lá. Então, agora um homem vestido de morcego tem que lutar contra o senhor das trevas. Ele consegue enfiar uma cruz no olho do diabo, mas toma um peteleco, voa longe, e não tem o que fazer contra um ser místico gigante que é a personificação do mal. Isso expõe o problema final dessa história. Batman está o tempo todo de carona. Ele não consegue, nem pode, interferir de maneira decisiva ou evitar os crimes ou entender o sobrenatural ou lutar contra demônios ou resolver nada.

Prova disso é que, no final, o morcegão não derrota o Diabo, nem prende a serial killer, nem nada. Lucifer simplesmente vai embora após a mãe de Luci se entregar a ele. Aparentemente quem tenta completar o ritual dos assassinatos para invocar o mal e falha, é levado ao inferno pelo tinhoso. Ele tinha vindo à Terra apenas coletar a alma da pessoa que falhou em trazê-lo à Terra para destruir o mundo... não tava nem aí pro batman e a cruz dele nem nada. Só pegou a mãe da Luci como punição por ser uma serial killer incompetente e pronto. Voltou pra casa. Deve ter levado os outros demônios embora de Gotham também, eu suponho. E o Batman... sei lá. Não era muito necessário no rolê todo, na real... Então tá.

Mas a arte é linda.

sexta-feira, 14 de agosto de 2026

O anjo da morte fugindo pela América do Sul

O Desaparecimento de Josef Mengele é a adaptação em quadrinhos do premiado livro do autor francês Olivier Guez sobre as décadas em que o médico nazista conhecido como Anjo da Morte viveu fugindo da lei pela América do Sul. A HQ conta com roteiro do também francês Alexis Nolent (aka Matz), desenhos/pintura do franco-alemão Jörg Mailliet e cores da francesa Sandra Desmazières.

A obra não foca nos horrores cometidos pelo médico no campo de extermínio de Auschwitz durante a segunda guerra mundial, mas no período em que ele viveu exilado escondido entre Argentina, Paraguai e Brasil, do fim dos anos 40 até o final de sua vida em 1979.

Isso torna a graphic novel mais palatável, evitando retratar os crimes cometidos por ele, dignos de revirar o estomago de qualquer um, e criando uma narrativa focada nos altos e baixos da vida no exílio e o declínio da saúde mental de Mengele, que flerta com a paranoia e loucura nos seus últimos anos, já quase esquecido pela família que o sustentou financeiramente durante 3 décadas.

Como vemos todo esse período pela perspectiva de Mengele, às vezes quase torcemos para que ele consiga escapar da perseguição do Mossad israelense pelo interior do Brasil ou que ele não enlouqueça após passar anos quase completamente sozinho em uma pequena casa no que parece ser uma favela.

É uma sensação curiosa ter que ficar se lembrando de que estamos seguindo a trajetória de um vilão. Não que a HQ passe pano para qualquer crime cometido pelo nazista, mas a narrativa de fuga é tão imersiva que essa reação acontece espontaneamente. Ou pelo menos aconteceu para mim.

No fim, é um alívio saber que, apesar de nunca ter sido capturado e nunca ter enfrentado o julgamento e punição que merecia, Mengele não viveu exatamente bem, não passou a vida aproveitando férias nos trópicos. Apesar de alguns períodos confortáveis, especialmente na Argentina de Perón nos anos 50, o alemão passou a maior parte do tempo fugindo e, aos poucos, vivendo em situações cada vez piores. Também foi ficando cada vez mais sozinho, vendo suas esposas e filhos o abandonarem e sua família se afastar.

A arte da HQ consegue representar visualmente essa atmosfera com precisão. Os desenhos de Jörg Mailliet variam bastante entre traços mais realistas e pinceladas mais expressionistas. Às vezes isso funciona bem, quando retrata a decadência mental do protagonista, outras vezes acaba por prejudicar um pouco o entendimento do cenário real, do mundo em torno de Megele. Já as cores de Sandra Desmazières são perfeitas. Complementam bem os desenhos e dão o tom que a história precisa.

O roteiro também funciona muito bem. O maior problema de histórias que cobrem um período tão longo costuma ser o excesso de pulos temporais, o que acaba por tirar o leitor da história, destruindo a imersão e o ritmo da narrativa. Matz consegue evitar esse problema. As cenas se desenvolvem com naturalidade e ritmo certos, com bons diálogos que não parecem artificiais ou telegráficos, mas bastante realistas, e personagens bem construídos, com personalidade.

Ou seja, uma bela graphic novel, que funciona bem por si só, evitando parecer um resuminho de um livro mais complexo. Uma leitura prazerosa apesar do protagonista ser um monstro e ter cometido crimes bárbaros e nunca ter se arrependido ou pagado pelo que fez.

Batman: Gárgula de Gotham

Eu curto muito os desenhos do Raphael Grampá e lembro de ter adorado ler a primeira hq dele, Mesmo Delivery, uns 15 anos atrás. Era um conto...